Eu me mexo com o barulho do despertador do celular. Minha gata caçula sabe que é hora e vem miar para mim. "Calma Amy!"
Banheiro, cozinha. Leite na caneca, microondas 1 minuto e 25 segundos no inverno (1 e 15 no verão). Uma colher cheia de Nescafé quando eu tenho muito sono. Uma colher bem cheia de açúcar.
Varanda, um cigarro pensando no dia que vem pela frente. Ou no sonho dessa noite. Nessa hora, nunca penso em ontem. Um gato no colo, 3 olhando os passarinhos pela tela de proteção.
Internet, previsão do tempo. Banheiro, banho. 15 peças de roupa fora do armário, vou usar umas três. Tudo fica por ali. Sapato por último, por mim, viveria de meias - mesmo no verão.
Banheiro, dentes, cabelo. Quarto, um beijo, "te amo", "bom dia", "desliga o lap", "me liga quando acordar". As vezes, entra um gato. Tira o gato, beija os quatro. "Volto tal horas", pq eles não entenderiam?
Elevador, portaria, escadinha, o segundo cigarro. Metrô, já estou acordada. Calculo os vagões, só penso em ir sentada e ler meu livro. Alguns dias, mãos inquietas buscam os botões do Ipod dentro da bolsa, procurando a música para começar o dia. Nos outros, o barulho do trem chegando me dá medo.
Uma estação vazia. Na outra, todos desesperados. "Não impeçam o fechamento das portas", "na impossibilidade de embarcar, aguarde o próximo trem". Todos surdos, é a primeira vez no dia que sinto raiva. Perfumes fortes, roupas feias, gente estranha.
Quinze páginas depois levanto. Desço. Sou gado. Pisam no meu calcanhar, sinto raiva de novo.
Na rua, desvio das mãos, estendidas, que me empurram papéis. Caminho muito. Escolho se atravesso no farol a esquerda ou em frente. Cálculo rápido, que faço todo dia.
Crachá, acho a chave na bolsa. Reinicio o computador. "Bom dia". Banheiro, corretivo, lápis e rímel.
Na minha mesa, faço uma lista de tudo o que precisa ser feito. Café com leite e mais um cigarro. Alguns cumprimentos, algumas pessoas. Tudo começa a funcionar.
No dia, problemas que precisam de solução. A cada solução, me sinto bem. Gosto de trabalhar e pronto.
Dinheiro, e-mails, telefones que tocam. Chamam meu nome. Estou ali.
A tarde, óculos escuro, caminho em direção ao almoço. Gosto de comer sozinha. Volto.
Olho as horas. Depois do almoço, as horas vão mais devagar. Faço pausas quando posso.
"Estou indo", escada, crachá e rua. Não subo mais a pé. Entro no ônibus e nunca sento.
Sou gado de novo no metrô. Pq abriram uma loja aqui? Quem compra roupa no metrô?
Mais quinze páginas. O cigarro sempre está pela metade quando chego na porta. É meu meio cigarro do dia, todo dia.
"Boa noite gatos". "Oi Vó"! "Vem logo para a casa, estou com fome".
Na varanda, aprendo o dia dele. Ele o meu. Temos muito o que fazer, nunca acaba.
Colchão no chão, Paul Weston, as vezes House, por uma semana inteira, Serena e Chuck. A Lucy quer domir em cima de mim, a Amy embaixo do cobertor. O Cookie quer carinho e o Filé comida.
A vizinha de cima chega, anda de salto e bate as portas. Num dia bom, relevo. Cansada, interfono. Confronto.
Pego no sono. Ouço que ele está comendo de novo. Ouço a porta da varanda quando ele acaba e vai fumar um cigarro.
Vou para a cama, pq tenho certeza que o despertador do celular vai tocar de novo as seis.