Existem experiências que te transportam para um universo paralelo. Você se enxerga em realidades muito distantes daquelas que está habituado.
Eu amo gatos. Descobri que os amava tarde, há uns três ou quatro anos. E desde então, me interesso cada vez mais por eles. Meu namorado diz que eu sou uma “crazy cat lady” em potencial.
E no meu caminho para o trabalho tem muitos gatos abandonados. E toda vez que os vejo tenho vontade de fazer alguma coisa. Tempo vai, tempo vem, acabei fazendo.
Os gatos da rua tiveram filhotes, e resolvi que precisava resgatá-los. Trouxe uma filhotinha para casa, apenas para descobrir no dia seguinte que mais sete continuavam abandonados.
Usei minha rede de contatos e armei um esquema para levá-los para um abrigo. Curioso é que eu tenho uma rede de contatos para ajudar gatos, mas não para arrumar um emprego melhor.
E eis que chega o sábado de manhã, cedo, muito cedo, no feriado. E eu lá, encarapitada no barranco que dá para uma avenida grande, segurando a cordinha de uma armadilha, conversando com uma tia que tem 40 gatos em casa.
Embaixo da ponte, não moram só os gatos. Na minha espera por um filhote que mordesse a isca, um senhor, que mora embaixo da ponte com os gatos cruza meu caminho. Conversamos. Ele fala baixo demais, como se não estivesse acostumado a falar mais. O tom da voz e o ar de surpresa quando falei com ele me fizeram pensar isso. Como se não conversasse com alguém há muito tempo.
E aí eu realizo: eu tenho como ajudar um gato, eu sei como ajudar um gato, mas não sei por onde começar com esse senhor. Eu tenho um pacote de ração e uma caixa de transporte, mas nada que sirva para ele. E ele não pode morar no banheirinho da minha área de serviço.
Ele volta para seu cantinho embaixo da ponte, depois de dizer que às vezes lhe parece que os gatos querem ser amigos dele. Sujo, descalço e morando na companhia dos gatos.
E eu continuo sem saber o que fazer. Por onde começar? Como?
Depois de amanhã eu volto para buscar os outros filhotes. As coisas para tal estão cada vez mais fáceis.
Mas aquele senhor continua não cabendo no meu banheiro e nem pode morar em uma gaiola até que alguém o veja no site e resolva adotá-lo.
Hoje, na minha vida, só tenho espaço para socorrer um gato. Talvez seja o momento de abrir espaço pra poder ajudar uma pessoa.
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