23 de março de 2008

Ei, você aí...

Aí você muda de casa e em 90% das vezes em que conta onde está morando recebe um sorriso, olhar ou comentário insinuando que você é “preibói”.

E em 100% desses 90%, engulo o texto que segue, para não perder a amizade:

“Sim, sou rica pra caralho. Eu só acordo cedo todo dia e pego um ônibus lotado por que eu curto usar o uniforme da empresa. Além disso, adoro quando meu chefe está de mau humor e encasqueta que eu sou mágica e consigo arrumar - em três minutos - o telefone do Senador que escreveu um artigo no jornal de Guaratinguetá na quarta-feira.

Sou contra dormir até tarde aos sábados, então levanto para trabalhar em um segundo emprego. E só saio de lá no meio da tarde, porque não sou muito chegada nesse lance de ‘aproveitar o fim de semana’.

Ocupei minhas férias com um terceiro trabalho apenas por acreditar que o trabalho enobrece o homem e o ócio é a oficina do demo.

Meu namorado trabalha até mais tarde para que nós passemos o máximo de tempo separados, para não desgastar a relação.

Sim, estou super bem de vida e me mudei para um apartamento melhor em um bairro tranqüilo não por precisar descansar depois de tanto trabalho. Foi só para mostrar que estou nadando em dinheiro e ver essa sua cara óbvia, indiscreta, insinuando que eu sou rica.

PS: Quer dinheiro emprestado? Eu tenho sobrando!”

Vovó e as drogas

“Você mudou de droga? Só estou perguntando por que você anda mais esquisito que de costume”, perguntou minha avó ao meu primo.

Oitenta e quatro anos de pura sabedoria, com um belo senso de humor.

Embaixo do Viaduto

Existem experiências que te transportam para um universo paralelo. Você se enxerga em realidades muito distantes daquelas que está habituado.

Eu amo gatos. Descobri que os amava tarde, há uns três ou quatro anos. E desde então, me interesso cada vez mais por eles. Meu namorado diz que eu sou uma “crazy cat lady” em potencial.

E no meu caminho para o trabalho tem muitos gatos abandonados. E toda vez que os vejo tenho vontade de fazer alguma coisa. Tempo vai, tempo vem, acabei fazendo.

Os gatos da rua tiveram filhotes, e resolvi que precisava resgatá-los. Trouxe uma filhotinha para casa, apenas para descobrir no dia seguinte que mais sete continuavam abandonados.

Usei minha rede de contatos e armei um esquema para levá-los para um abrigo. Curioso é que eu tenho uma rede de contatos para ajudar gatos, mas não para arrumar um emprego melhor.

E eis que chega o sábado de manhã, cedo, muito cedo, no feriado. E eu lá, encarapitada no barranco que dá para uma avenida grande, segurando a cordinha de uma armadilha, conversando com uma tia que tem 40 gatos em casa.

Embaixo da ponte, não moram só os gatos. Na minha espera por um filhote que mordesse a isca, um senhor, que mora embaixo da ponte com os gatos cruza meu caminho. Conversamos. Ele fala baixo demais, como se não estivesse acostumado a falar mais. O tom da voz e o ar de surpresa quando falei com ele me fizeram pensar isso. Como se não conversasse com alguém há muito tempo.

E aí eu realizo: eu tenho como ajudar um gato, eu sei como ajudar um gato, mas não sei por onde começar com esse senhor. Eu tenho um pacote de ração e uma caixa de transporte, mas nada que sirva para ele. E ele não pode morar no banheirinho da minha área de serviço.

Ele volta para seu cantinho embaixo da ponte, depois de dizer que às vezes lhe parece que os gatos querem ser amigos dele. Sujo, descalço e morando na companhia dos gatos.

E eu continuo sem saber o que fazer. Por onde começar? Como?

Depois de amanhã eu volto para buscar os outros filhotes. As coisas para tal estão cada vez mais fáceis.

Mas aquele senhor continua não cabendo no meu banheiro e nem pode morar em uma gaiola até que alguém o veja no site e resolva adotá-lo.

Hoje, na minha vida, só tenho espaço para socorrer um gato. Talvez seja o momento de abrir espaço pra poder ajudar uma pessoa.